Resenha: “Live in London – A Night at Cart & Horses” – Loss (2026)
September 1, 2026 0 By Geraldo Andrade“Live in London – A Night at Cart & Horses”, é o registro de uma banda brasileira que chegou a Londres carregando sua própria identidade — e teve competência para fazê-la ecoar em um dos endereços mais emblemáticos da história do rock pesado, essa banda chama-se Loss.
O Cart & Horses, carrega o peso de ter sido um dos primeiros palcos do Iron Maiden. Só que o Loss não parece intimidado pelo fantasma. Pelo contrário: transforma o peso histórico do lugar em combustível.
Gravado em 25 de outubro de 2025, durante a segunda turnê europeia da banda, o álbum apresenta o Loss em sua formação de power trio, com Marcelo Loss no baixo e vocais, Adriano Avelar na guitarra e Teddy Bronsk na bateria. O repertório londrino é complementado por duas faixas registradas em Paris e Amsterdã, fazendo do lançamento não apenas uma fotografia de uma noite, mas um pequeno diário sonoro da estrada.
E estrada é uma palavra importante aqui. Porque “Live in London” soa como um disco de uma banda que já entendeu que estrada não é prêmio: é teste.
O Loss já havia mostrado em “Human Factor” que seu som não cabe confortavelmente em uma única prateleira. Há heavy metal, hard rock, stoner, groove e uma dose generosa daquela sujeira analógica que faz um riff parecer ter peso físico.
No palco, tudo isso fica mais evidente.
“The Storm” é o primeiro golpe. A faixa abre o registro sem qualquer preocupação em criar suspense. O riff entra pesado, a bateria acompanha com força e o baixo ajuda a construir aquela sensação de locomotiva que atravessa a música.
É uma abertura eficiente porque estabelece imediatamente a regra do jogo: aqui não existe espaço para excesso de produção. O que importa é a banda funcionando. E funciona.
“Human Factor”, por sua vez, é uma das peças fundamentais do repertório. Se a faixa-título do segundo álbum de estúdio representava no estúdio a identidade do Loss, ao vivo ela assume o papel de manifesto. O riff é direto, pesado e suficientemente contagiante para fazer o público participar mesmo sem conhecer cada detalhe da música.É heavy metal com senso de movimento.
“Até Quando” é um dos momentos mais interessantes do álbum justamente por fugir da predominância do inglês. A música prova que não existe necessidade de traduzir a identidade para conquistar espaço fora do Brasil. Marcelo Loss canta em português, e a banda permanece absolutamente confortável dentro da própria sonoridade. O resultado é mais forte do que qualquer tentativa de internacionalização artificial. A língua muda.O peso, não. E talvez seja justamente isso que o Loss tenha levado para Londres: não uma versão europeizada de si mesmo, mas a mesma banda que pisaria em um palco brasileiro. Uma banda de três que parece cinco.
Em “Life Shows” e “Burn Inside”, o que chama atenção é a engenharia interna do trio. Power trio é uma formação ingrata. Não existe músico sobrando para preencher buracos. Cada instrumento precisa ocupar seu espaço e, ao mesmo tempo, deixar espaço para os outros. O Loss entende isso.O baixo não está escondido atrás da guitarra. A bateria não funciona apenas como metrônomo. E Adriano Avelar não precisa transformar cada intervalo em uma oportunidade para demonstrar técnica.
Tudo está a serviço da música.
“Burn Inside” é especialmente eficaz nesse sentido. A faixa cresce pelo groove, pela repetição e pela maneira como o trio constrói tensão. É música pesada que entende que esmagar não significa necessariamente acelerar. Às vezes, basta baixar a afinação e deixar o riff respirar.
“In My Mind” é onde a coisa pega fogo. A faixa possui aquela combinação perigosa de riff memorável e atmosfera pesada. No estúdio já funcionava; diante de uma plateia, ganha outra musculatura. É também um dos momentos em que Adriano Avelar encontra maior liberdade para explorar a guitarra sem quebrar a dinâmica da música. O solo aparece como consequência natural do riff, não como interrupção. Esse detalhe diz muito sobre o Loss. A banda parece saber exatamente quando mostrar força e quando simplesmente deixar a música acontecer. É provavelmente a faixa que melhor representa essa maturidade.
“Leaving” carrega no próprio título uma ideia que combina perfeitamente com um álbum registrado durante uma turnê.
É uma música sobre movimento, mas também sobre permanência. Porque quanto mais o Loss viaja, mais claramente parece saber de onde veio. A composição encontra no palco uma atmosfera própria. A guitarra abre espaço, a cozinha sustenta a tensão e o vocal mantém a faixa ancorada naquele território entre o hard rock e o metal. É uma das músicas que melhor traduzem a experiência de ouvir o Loss ao vivo: não existe uma parede entre quem toca e quem escuta. Existe impacto.
Paris, Amsterdã e o fim da noite.
Quando chegam “The Light”, gravada em Paris, e “Hold Me”, registrada em Amsterdã, o disco ganha uma pequena mudança de perspectiva. São bônus, mas não parecem sobras.
Funcionam como lembranças de uma turnê que passou por seis países e sete apresentações. E isso dá ao álbum uma dimensão documental interessante: Londres é o centro da narrativa, mas a estrada continua além dela.
“Hold Me”, especialmente, ajuda a mostrar que o Loss não vive apenas de pancada. Há espaço para dinâmica, melodia e atmosferas diferentes dentro desse universo. É importante porque impede que o álbum seja reduzido a uma sequência uniforme de riffs.
O grande mérito de “Live in London – A Night at Cart & Horses” não está na qualidade da gravação, no endereço histórico ou no fato de uma banda brasileira ter excursionado pela Europa. Está na naturalidade. O Loss não parece estar tentando provar nada. E justamente por isso prova muita coisa.
Prova que as músicas de “Human Factor” sobrevivem fora do estúdio. Prova que o trio tem presença de palco. Prova que o peso brasileiro pode atravessar fronteiras sem precisar perder sotaque. E prova, sobretudo, que ainda existe espaço para uma banda simplesmente confiar em bons riffs, boa execução e atitude.
“The Storm” abre a tempestade, “Human Factor” apresenta o DNA, “Até Quando” coloca identidade, “Burn Inside” faz o chão vibrar, “In My Mind” entrega um dos grandes momentos, “Leaving” deixa a estrada aberta.
E quando “Let’s Go” encerra a noite londrina, fica aquela sensação típica dos bons shows: a de que o disco acabou antes da vontade de ouvir terminar. Talvez seja esse o melhor elogio possível para um álbum ao vivo.
“Live in London” não tenta transformar o Loss em uma lenda. Ele registra uma banda trabalhando para chegar lá. E, ouvindo o resultado, dá para dizer que o caminho está ficando cada vez mais interessante.
Músicas
1- The Storm (London)
2- Human Factor (London)
3- Até Quando (London)
4- Life Shows (London)
5- Burn Inside (London)
6- In My Mind (London)
7- Leaving (primeiro single do álbum)
8- Let´s Go (London)
9- The Light (Paris)
10- Hold Me (Amsterdam)

Geraldo “Gegê” Andrade blogueiro e vlogueiro a mais de 15 anos. Iniciou sua paixão pelo rock n roll, nos anos 80, quando pela primeira vez, ouviu um álbum da banda KISS. Tem um currículo com mais de 500 shows, de bandas nacionais e internacionais. Um especialista em entrevistas, já tendo entrevistado vários músicos nacionais e internacionais.
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Geraldo "Gegê" Andrade blogueiro e vlogueiro a mais de 15 anos. Iniciou sua paixão pelo rock n roll, nos anos 80, quando pela primeira vez, ouviu um álbum da banda KISS. Tem um currículo com mais de 500 shows, de bandas nacionais e internacionais. Um especialista em entrevistas, já tendo entrevistado vários músicos nacionais e internacionais.


