Resenha: “Boom Bang Goodbye” – Sinner (2026)

Resenha: “Boom Bang Goodbye” – Sinner (2026)

August 27, 2026 0 By Geraldo Andrade

Chegar ao 21º álbum de estúdio depois de mais de quatro décadas de estrada já seria motivo suficiente para reverenciar uma banda. Quando esse mesmo trabalho pode ser o último da carreira, a expectativa aumenta. Mas Mat Sinner não parece muito interessado em fazer de “Boom Bang Goodbye” um disco de despedida melancólico. Muito pelo contrário: o Sinner encerra sua trajetória, se é realmente o fim, fazendo o que sempre fez de melhor, ou seja, entregando hard rock e heavy metal melódico com boas guitarras, refrões grudentos e aquela velha escola alemã de composição que não precisa inventar moda para funcionar.

São onze faixas que percorrem diferentes facetas da banda, passando pelo hard rock mais acessível, momentos de AOR, algumas boas doses de peso e, naturalmente, aquele clima oitentista que nunca deixou de fazer parte do DNA do Sinner.

E o melhor: o disco não soa como uma banda tentando desesperadamente provar que ainda está viva.

Soa como uma banda que sabe que já fez história e resolveu aproveitar a festa até a última música.

A abertura com “Dreams Can Come True” é bastante apropriada. Com Renan Zonta, do Electric Mob, nos vocais, a faixa aposta no lado mais melódico e radiofônico do Sinner. O refrão funciona logo na primeira audição e não é uma composição revolucionária, mas também não precisa ser. É uma boa porta de entrada para o álbum.

Quem rouba um pouco mais da cena é Michael Bormann em “Wait”. O vocalista tem exatamente o tipo de voz que combina com esse material e entrega uma interpretação cheia de personalidade. A música poderia tranquilamente estar em um daqueles discos clássicos de hard rock melódico dos anos 80, mas recebe uma produção moderna e não soa datada. É uma das melhores do álbum.

“Leave It All Behind” traz Ronnie Romero e mostra uma faceta mais pesada e emocional. Romero é daqueles vocalistas que conseguem colocar personalidade até em uma composição relativamente convencional, e aqui não é diferente. A faixa cresce aos poucos e ganha força justamente pelo equilíbrio entre melodia e peso.

Depois vem “All Night Long”, e aí não tem segredo: é rock’n’roll. Guitarra, groove, refrão e aquele espírito de “vamos tocar até o sol nascer”. É uma das faixas mais divertidas do disco e representa muito bem o lado festeiro do Sinner. Não inventa nada, mas também não precisa. É feita para ser ouvida em alto volume.

“Are You Ready”, com Björn “Speed” Strid, é outro bom exemplo de como o Sinner consegue trabalhar com diferentes vocalistas sem perder sua identidade. A presença do vocalista do Soilwork poderia indicar uma direção mais agressiva, mas a música continua essencialmente dentro do território do hard rock melódico. Strid apenas acrescenta sua personalidade ao conjunto.

“Born To Run”, com Erik Mårtensson, segue uma linha semelhante. É uma composição bastante melódica, com refrão forte e guitarras que fazem o serviço sem exageros. Talvez não seja a música mais marcante do disco, mas funciona muito bem dentro da sequência.

E quando parece que o álbum vai ficar excessivamente melódico, “Hellbreaker” chega para colocar as coisas no devido lugar. Aqui o Sinner pisa um pouco mais fundo. Ronnie Romero volta aos vocais e a faixa ganha riffs mais pesados, bateria mais agressiva e uma atmosfera que aproxima o álbum do heavy metal tradicional. É curta, direta e eficiente. Sem enrolação.

“Turn The Page” é outro dos momentos interessantes. Michael Sadler, conhecido pelo trabalho no Saga, dá uma personalidade diferente à música. A composição tem uma pegada mais sofisticada e atmosférica, fugindo um pouco do padrão das faixas anteriores. O título também não poderia ser mais adequado para um álbum que pode representar o encerramento de uma carreira. Virar a página. É exatamente isso que Mat Sinner parece estar fazendo.

“Road To Remember” é, provavelmente, uma das faixas que mais ganham força quando se conhece o contexto do álbum. Com Michael Bormann novamente nos vocais, a música fala sobre estrada, lembranças e tudo aquilo que fica para trás depois de tantos anos. Não é uma balada lacrimosa, felizmente. O Sinner continua sendo uma banda de rock até quando fala de nostalgia.

“Under The Moonlight” volta a colocar peso nas guitarras e funciona como uma das faixas mais tradicionais do álbum. É Sinner fazendo Sinner: riff, melodia, refrão e vocais fortes. Talvez não surpreenda, mas entrega exatamente aquilo que o fã espera.

E então chegamos à última faixa, “Power”. Com Magnus Karlsson nos vocais e guitarras, a música fecha o álbum de maneira grandiosa. E aqui está uma das melhores decisões de Mat Sinner: não terminar a carreira com uma música excessivamente triste. “Power” tem força, melodia e um refrão que parece feito para encerrar um show. É quase uma declaração de princípios. Depois de tudo, ainda existe power.

As participações especiais poderiam ter sido um problema. Afinal, são vários vocalistas diferentes e, em teoria, isso poderia transformar o álbum numa coleção de músicas desconectadas. Mas não acontece.

Renan Zonta, Michael Bormann, Ronnie Romero, Björn Strid, Erik Mårtensson, Michael Sadler e Magnus Karlsson acrescentam diferentes cores ao disco, mas a identidade do Sinner continua intacta. E isso é mérito de Mat Sinner.

O baixista e líder sabe exatamente onde quer chegar. Não importa quem está diante do microfone: quando as guitarras entram, sabemos que estamos ouvindo Sinner.

Adeus? Essa é a pergunta que inevitavelmente acompanha “Boom Bang Goodbye”. E talvez seja melhor não pensar demais nisso.

Porque, se for mesmo o último disco, a banda escolheu uma maneira bastante digna de sair de cena. Não existe aqui aquela sensação de “vamos fazer um álbum porque precisamos encerrar contrato”. Existe energia, boas composições e, principalmente, vontade de tocar rock.

“Boom Bang Goodbye” não é o melhor álbum da carreira do Sinner, seria injusto colocá-lo ao lado dos grandes clássicos da banda esperando que ele ganhe essa disputa. Mas também não precisa ser. Sua função é outra. É olhar para mais de 40 anos de história, reunir alguns bons músicos, colocar guitarras para funcionar e dizer: “Foi uma bela viagem. Agora vamos tocar mais uma.”

No fim das contas, “Boom Bang Goodbye” é exatamente o que seu título promete: boom, bang e goodbye. Sem drama, sem frescura, só rock.

sinner

Músicas
1- Dreams Can Come True
2- Wait
3- Leave It All Behind
4- All Night Long
5- Are You Ready
6- Born To Run
7- Hellbreaker
8- Turn The Page
9- Road To Remember
10- Under The Moonlight
11- Power

Geraldo "Gegê" Andrade

Geraldo “Gegê” Andrade blogueiro e vlogueiro a mais de 15 anos. Iniciou sua paixão pelo rock n roll, nos anos 80, quando pela primeira vez, ouviu um álbum da banda KISS. Tem um currículo com mais de 500 shows, de bandas nacionais e internacionais. Um especialista em entrevistas, já tendo entrevistado vários músicos nacionais e internacionais. 

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