Resenha: “Over the Under” – Down (2007) Relançamento 2026
September 7, 2026 0 By Geraldo AndradeHá discos que são feitos para celebrar uma vitória. Outros nascem justamente quando sobreviver já pode ser considerado uma conquista. “Over the Under”, terceiro álbum do DOWN, pertence à segunda categoria.
Lançado em 2007, o disco encontrou Philip Anselmo, Pepper Keenan, Kirk Windstein, Rex Brown e Jimmy Bower em um momento particularmente turbulento. O peso de New Orleans depois do furacão Katrina, perdas pessoais, anos de excessos e as cicatrizes deixadas pela implosão do universo Pantera não aparecem no álbum como simples referências biográficas. Eles estão impregnados nos riffs, nos silêncios, na voz de Anselmo e, sobretudo, naquela sensação permanente de que cada música está tentando se levantar depois de ter sido soterrada.
E é justamente aí que Over the Under encontra sua força.
O DOWN nunca precisou disputar velocidade com ninguém. Seu território sempre foi outro: riffs que parecem se arrastar pelo chão, guitarras cobertas de ferrugem e fumaça, bateria pesada como uma marreta e aquela combinação irresistível de sludge, doom, blues, southern rock e psicodelia. Em “Over the Under”, porém, a banda parece compreender melhor do que nunca como transformar esses elementos em canções.
“Three Suns and One Star” abre os trabalhos sem pedir licença. O riff principal é enorme, mas não é apenas volume: existe dinâmica, existe melodia e existe espaço para Anselmo mostrar uma faceta mais controlada de sua voz. É um começo que deixa claro que o DOWN não está interessado em repetir simplesmente “NOLA” ou “A Bustle in Your Hedgerow”. A intenção é pegar aquela velha fórmula, apertá-la, torná-la mais direta e fazê-la carregar um peso emocional maior.
“The Path” vem na sequência com aquele groove pantanoso que a banda transformou em assinatura. O riff parece caminhar em câmera lenta, mas a música nunca perde o movimento. “N.O.D.” é ainda mais representativa dessa faceta: guitarra e bateria trabalham como uma máquina pesada e enferrujada, enquanto Anselmo alterna agressividade e uma espécie de melancolia que se tornou cada vez mais evidente em seu trabalho.
Então surge “I Scream”, uma das faixas mais agressivas do disco. Aqui o DOWN abandona momentaneamente o caminhar arrastado e acelera o passo sem perder sua identidade. É música para ouvir com o volume alto, mas também uma demonstração de que a banda poderia ser brutal sem depender exclusivamente da lentidão.
O coração emocional do álbum, entretanto, começa a bater mais forte em “On March the Saints”. A faixa carrega a alma de New Orleans e transforma devastação em hino. Não há necessidade de explicar tudo em palavras: as guitarras, o andamento e a interpretação de Anselmo dizem o suficiente. É uma música que consegue ser pesada e celebratória ao mesmo tempo, como se a própria cidade estivesse tentando reconstruir suas paredes enquanto ainda carregava os mortos na memória.
“Never Try” diminui a temperatura e mergulha de vez no blues. É uma das demonstrações mais interessantes de que o DOWN compreende que peso não é sinônimo de distorção. Existe uma sujeira orgânica no arranjo, um balanço quase rural, enquanto a voz de Anselmo se aproxima mais do canto do que do urro. É uma das características que fazem Over the Under envelhecer tão bem: a banda sabe quando atacar e, principalmente, quando recuar.
“Mourn” retoma a densidade. O título praticamente entrega a atmosfera, mas a música evita cair na caricatura do doom arrastado. A guitarra de Pepper Keenan e Kirk Windstein constrói aquela parede sonora característica, enquanto a cozinha de Rex Brown e Jimmy Bower sustenta tudo com uma precisão que muitas vezes passa despercebida justamente porque parece natural.
“Beneath the Tides” é outro momento especial. A faixa possui uma beleza sombria, quase contemplativa, e revela o quanto o blues está entranhado no DNA do DOWN. Não é blues tocado por uma banda de metal tentando parecer blues. É o contrário: é uma banda de metal que entende o blues como uma das raízes fundamentais de sua música.
“His Majesty the Desert” funciona como uma espécie de passagem psicodélica antes de “Pillamyd”, que chega como um soco. O contraste é importante para a dinâmica do álbum. “Pillamyd” está entre os momentos mais violentos do trabalho, enquanto “In the Thrall of It All” volta a explorar o lado mais expansivo e hipnótico do grupo.
Mas é no final que “Over the Under” revela sua verdadeira dimensão.
“Nothing in Return (Walk Away)” ultrapassa oito minutos e poderia facilmente ter sido um exercício de excesso. Não é. A faixa cresce lentamente, permitindo que as guitarras respirem, que Anselmo encontre diferentes registros e que o DOWN transforme sua mistura de blues, rock clássico, psicodelia e metal em uma conclusão quase cinematográfica.
É uma despedida que não soa como derrota.
E talvez essa seja a melhor maneira de compreender “Over the Under”. O álbum não é sobre esquecer o passado. É sobre continuar apesar dele.
A produção de Warren Riker preserva deliberadamente uma certa aspereza no som. Em alguns momentos, a mixagem pode parecer excessivamente carregada, especialmente quando baixo, bateria e guitarras se encontram no mesmo espaço. Mas essa imperfeição também contribui para a personalidade do disco. O DOWN nunca foi uma banda que deveria soar esterilizada. Sua música precisa ter terra, madeira, ferrugem, suor e fumaça. Precisa parecer que foi tocada em algum lugar onde o ar é pesado e as paredes absorvem décadas de blues.
Também existe uma questão importante envolvendo Anselmo. “Over the Under” registra um vocalista menos interessado em provar que consegue ser o homem mais furioso da sala. Ele canta, grita, rasga a garganta quando necessário, mas também deixa aparecer vulnerabilidade. E isso faz toda a diferença. A voz passa a carregar não apenas raiva, mas desgaste, arrependimento, resistência e, em alguns momentos, esperança.
Musicalmente, o disco tampouco pretende revolucionar o heavy metal. Não precisa. O mérito está justamente em aprofundar uma linguagem que já pertencia ao DOWN. Se “NOLA” foi a apresentação definitiva daquele som e “A Bustle in Your Hedgerow” ampliou suas possibilidades, “Over the Under” é o momento em que a banda transforma experiência de vida em identidade artística.
É um álbum sobre cicatrizes, sobre New Orleans, sobre perdas, sobre amizade e sobre continuar tocando quando seria mais fácil simplesmente parar.
Quase duas décadas depois de seu lançamento, “Over the Under” permanece como um dos registros mais humanos do catálogo do DOWN. Não é necessariamente o disco mais revolucionário da banda, nem tenta ser. Sua importância está em outra parte: ele mostra músicos veteranos colocando suas próprias histórias dentro de riffs que parecem antigos como o blues e pesados como o metal que ajudaram a moldar.
Em 2026, o álbum ganhou uma nova remasterização oficial, com “Invest in Fear” acrescentada como faixa bônus. A nova edição serve como oportunidade para revisitar uma obra que já havia demonstrado possuir algo mais importante que novidade: longevidade.
Porque Over the Under não soa como um disco tentando sobreviver ao seu tempo, ele soa como um disco que sobreviveu a ele.
Músicas
1- Three Suns And One Star
2- The Path
3- N.O.D.
4- I Scream
5- On March The Saints
6- Never Try
7- Mourn
8- Beneath The Tides
9- His Majesty The Desert
10- Pillamyd
11- In The Thrall Of It All
12- Nothing In Return (Walk Away)
13. Invest in Fear (Bonus Track)

Geraldo “Gegê” Andrade blogueiro e vlogueiro a mais de 15 anos. Iniciou sua paixão pelo rock n roll, nos anos 80, quando pela primeira vez, ouviu um álbum da banda KISS. Tem um currículo com mais de 500 shows, de bandas nacionais e internacionais. Um especialista em entrevistas, já tendo entrevistado vários músicos nacionais e internacionais.
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Geraldo "Gegê" Andrade blogueiro e vlogueiro a mais de 15 anos. Iniciou sua paixão pelo rock n roll, nos anos 80, quando pela primeira vez, ouviu um álbum da banda KISS. Tem um currículo com mais de 500 shows, de bandas nacionais e internacionais. Um especialista em entrevistas, já tendo entrevistado vários músicos nacionais e internacionais.


