Resenha: “One Assassination Under God – Chapter 2” – Marilyn Manson (2026)
October 13, 2026 0 By Geraldo AndradeHá artistas que envelhecem tentando convencer o mundo de que ainda são perigosos. Outros descobrem que a verdadeira perversidade não está em gritar mais alto, vestir o figurino mais escandaloso ou provocar a próxima manchete, mas em transformar as próprias ruínas em matéria-prima. Marilyn Manson parece compreender essa diferença em “One Assassination Under God – Chapter 2”, um disco que abandona qualquer ilusão de inocência e mergulha em um território onde a redenção é tão suspeita quanto a condenação.
Segundo capítulo de um projeto iniciado em 2024, o álbum dá continuidade à atmosfera sombria de seu antecessor, mas desloca o eixo emocional para um ambiente mais hostil, defensivo e introspectivo. Não há aqui uma tentativa desesperada de ressuscitar o fantasma de “Antichrist Superstar”, tampouco uma operação nostálgica para recuperar a juventude perdida. O que existe é um Manson interessado em explorar as contradições de sua própria persona, cercado por guitarras densas, texturas industriais e melodias que parecem emergir de um pesadelo filmado em película deteriorada.
A parceria com Tyler Bates, novamente responsável pela construção musical ao lado de Manson, funciona como o principal alicerce dessa arquitetura decadente. A produção privilegia o peso sem sacrificar o senso melódico, alternando momentos de agressividade frontal com passagens de tensão quase cinematográfica. O resultado é um álbum que não precisa recorrer ao caos absoluto para transmitir desconforto: muitas vezes, basta uma guitarra cortante, uma base mecânica e aquela voz que parece carregar mais cicatrizes do que certezas.
A abertura com “Unalive” estabelece o tom de uma obra que flerta continuamente com o desaparecimento, a transformação e a negação da própria existência. Em vez de oferecer uma porta de entrada acolhedora, a faixa parece conduzir o ouvinte a um corredor sem iluminação, onde cada passo aumenta a sensação de aprisionamento. É uma introdução coerente para um disco que trata a sobrevivência menos como vitória e mais como condenação a continuar enfrentando os próprios fantasmas.
Na sequência, “Don’t Answer the Door” trabalha com a ideia de ameaça iminente, reforçando a atmosfera claustrofóbica que atravessa o álbum. O título sugere uma fronteira entre o mundo exterior e o espaço íntimo, mas, no universo de Manson, portas fechadas raramente significam segurança. O perigo pode estar do lado de fora; o problema é que ninguém garante que aquilo que permanece do lado de dentro seja menos aterrorizante.
É em “Front Toward Enemy”, porém, que a agressividade assume contornos mais diretos. A faixa recupera a faceta mais combativa do artista, com energia suficiente para despertar a memória de seus trabalhos mais explosivos sem cair na armadilha da repetição automática.
“All the Vilest Things” é uma das composições mais reveladoras do disco em termos de posicionamento emocional. A faixa se aproxima do ressentimento e da autodefesa, expondo uma narrativa em que a hostilidade do mundo ocupa o centro do palco. O problema — e também o elemento mais interessante — é que a perspectiva do narrador não precisa ser confundida com uma verdade incontestável. Manson sempre soube construir personagens que transformam suas feridas em armas; a questão é perceber quando a teatralidade revela alguma coisa e quando serve apenas para proteger o protagonista de qualquer julgamento.
A atmosfera muda de temperatura em “None of the Suns”, cuja proposta mais sombria e cadenciada favorece o lado hipnótico da parceria entre Manson e Bates. Em vez de avançar pela força bruta, a composição parece se alimentar de espaços, repetições e tensões graduais. É nesse tipo de construção que o disco demonstra maturidade: o peso não depende exclusivamente do volume, e a escuridão não precisa ser acompanhada de uma explosão a cada minuto.
“Lucifer’s Teardrop” aprofunda essa relação entre iconografia religiosa e vulnerabilidade. O imaginário demoníaco, há muito incorporado ao vocabulário visual e lírico de Manson, ganha aqui uma dimensão que vai além da provocação superficial. Anjos caídos, culpa, salvação e condenação continuam sendo peças de um repertório familiar, mas sua permanência sugere uma pergunta mais incômoda: o que acontece quando alguém passa tanto tempo representando o monstro que já não consegue separar completamente a máscara do rosto?
Nem tudo, entretanto, alcança a mesma intensidade. “The Arsonist” se beneficia da atmosfera corrosiva do conjunto, mas sua abordagem menos incisiva torna a experiência irregular em comparação com os momentos mais fortes do álbum. A sensação é de que a ideia central possui potencial para incendiar o ambiente, mas nem sempre encontra a composição necessária para transformar essa promessa em uma combustão memorável.
Quando “Exit Wound” entra em cena, a impressão é de uma ferida que deixou de ser apenas lembrança e passou a determinar os movimentos do corpo. A faixa concentra elementos essenciais da identidade desta fase: peso industrial, dramatização sombria e uma melodia que permanece mesmo quando a instrumentação ameaça sufocá-la. É um dos momentos em que a colaboração entre Manson e Bates demonstra maior eficiência, equilibrando contundência e atmosfera sem transformar a música em mero exercício de autoparódia.
O encerramento com “Enantiomorph” reforça a dimensão conceitual da obra. A própria ideia de enantiomorfismo remete a formas espelhadas que se correspondem sem serem perfeitamente sobreponíveis — uma imagem apropriada para um artista que trabalha continuamente com dualidade, identidade e representação. O fechamento não precisa oferecer respostas definitivas para cumprir sua função. Pelo contrário: deixa no ar a possibilidade de que vítima e algoz, salvação e condenação, persona pública e indivíduo sejam imagens em conflito, incapazes de produzir uma síntese confortável.
Musicalmente, “One Assassination Under God – Chapter 2” não pretende redefinir o metal industrial, nem precisa fazê-lo. Seu mérito está na consistência de uma linguagem que combina peso, melodrama e tensão psicológica sem depender exclusivamente do passado. O disco encontra pontos de contato com a agressividade de fases clássicas e com o senso de atmosfera desenvolvido em trabalhos posteriores, mas preserva uma identidade própria dentro dessa continuidade.
Também é necessário reconhecer os limites dessa abordagem. A insistência em uma perspectiva marcada pelo ressentimento pode estreitar o alcance emocional de algumas composições, enquanto determinados recursos estéticos já fazem parte de um vocabulário amplamente conhecido. A escuridão, quando se torna permanente, corre o risco de perder contraste; a provocação, quando se transforma em hábito, deixa de surpreender. O álbum escapa parcialmente dessas armadilhas graças à força de sua produção e aos momentos em que a vulnerabilidade atravessa a armadura, mas nem todas as faixas conseguem converter tensão em revelação.
No fim, “One Assassination Under God – Chapter 2” é menos um manifesto de renascimento do que um inventário de cicatrizes. Marilyn Manson não parece interessado em apresentar uma versão purificada de si mesmo, mas em continuar explorando o espaço instável entre destruição e sobrevivência. Há momentos de grande força, outros que poderiam ser mais incisivos e uma atmosfera que, mesmo quando se torna previsível, permanece fiel à proposta.
O velho provocador já não precisa incendiar o mundo inteiro para produzir desconforto. Basta apontar para os escombros, reconhecer que ainda existe fumaça e deixar que o ouvinte decida o que está vendo.
Porque, neste capítulo, o inferno não aparece como destino final. É o lugar de onde se continua falando — sem garantias de redenção, sem promessa de inocência e sem a certeza de que sobreviver significa, necessariamente, vencer.
Músicas
1. Unalive
2. Don’t Answer The Door
3. Front Toward Enemy
4. All The Vilest Things
5. None of the Suns
6. Lucifer’s Teardrop
7. The Arsonist
8. Exit Wound
9. Enantiomorph

Geraldo “Gegê” Andrade blogueiro e vlogueiro a mais de 15 anos. Iniciou sua paixão pelo rock n roll, nos anos 80, quando pela primeira vez, ouviu um álbum da banda KISS. Tem um currículo com mais de 500 shows, de bandas nacionais e internacionais. Um especialista em entrevistas, já tendo entrevistado vários músicos nacionais e internacionais.
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Geraldo "Gegê" Andrade blogueiro e vlogueiro a mais de 15 anos. Iniciou sua paixão pelo rock n roll, nos anos 80, quando pela primeira vez, ouviu um álbum da banda KISS. Tem um currículo com mais de 500 shows, de bandas nacionais e internacionais. Um especialista em entrevistas, já tendo entrevistado vários músicos nacionais e internacionais.


