Resenha: “Grand Serpent Rising” – Dimmu Borgir (2026)
September 17, 2026 0 By Geraldo AndradeTem banda que envelhece. Tem banda que desaparece. E tem banda que simplesmente fica trancada em algum castelo norueguês por oito anos, provavelmente cercada de velas, fumaça, grimórios e uma quantidade questionável de maquiagem, esperando o momento adequado para reaparecer. Dimmu Borgir pertence à terceira categoria.
Depois de “Eonian” (2018), o silêncio foi longo o bastante para que muita gente começasse a perguntar se a criatura ainda estava respirando. O black metal sinfônico já não é novidade, a própria fórmula da banda foi explorada até quase o último frasco de tinta preta e, convenhamos, repetir a velha receita poderia resultar apenas em mais um disco bonito, pomposo e perfeitamente esquecível.
Então chega “Grand Serpent Rising”, e a primeira constatação é simples: a serpente ainda tem veneno.
O disco não tenta fingir que estamos em 1997. O que encontramos aqui é uma banda que conhece o próprio legado, sabe que construiu um império em cima de riffs gelados, teclados sinistros, blast beats e uma teatralidade que faria até um diretor de cinema gótico pedir moderação, mas decidiu não viver eternamente de fotografia antiga. O resultado é um Dimmu Borgir mais consciente de seus próprios exageros. E isso, vindo deles, já é uma pequena revolução.
O Dimmu Borgir nunca foi exatamente uma banda discreta, enquanto boa parte do black metal norueguês fazia questão de parecer gravada dentro de uma floresta congelada às três da manhã, os caras olharam para aquilo e aparentemente pensaram: “Legal. Mas e se colocássemos uma orquestra?”
“Grand Serpent Rising” mantém essa vocação cinematográfica, mas existe uma diferença importante: a orquestra não está tentando engolir a música a todo instante. As guitarras aparecem com mais autoridade. A bateria ganha espaço. Os vocais de Shagrath continuam carregando aquela combinação de rosnado demoníaco e declaração imperial. E, quando os arranjos sinfônicos entram, eles têm mais impacto justamente porque não estão tentando transformar cada segundo do álbum na trilha sonora definitiva do fim do mundo.
“Tridentium” prepara o terreno e “Ascent” começa a mostrar os dentes. É aí que o álbum encontra seu eixo: atmosfera, agressividade e melodias suficientemente memoráveis para não desaparecerem assim que a faixa termina.
O título não poderia ser mais adequado, a serpente representa transformação, troca de pele, renovação e “Grand Serpent Rising” funciona exatamente assim.
Não há aqui uma tentativa desesperada de recuperar uma juventude perdida. O Dimmu Borgir sabe que os tempos de “Stormblåst” e “Enthrone Darkness Triumphant” pertencem a outra encarnação. A banda mudou, o metal mudou e o próprio ouvinte mudou. O que permanece é a essência.
Em “As Seen in the Unseen”, por exemplo, o grupo encontra um equilíbrio interessante entre melodia e agressividade. Não existe a sensação de que estamos ouvindo uma banda tentando provar que ainda consegue tocar rápido. Ela simplesmente toca e bem.
“Ulvgjeld & Blodsodel” pisa mais fundo no acelerador, enquanto “The Qryptfarer” trabalha aquela atmosfera majestosa que virou praticamente uma patente do grupo. É Dimmu Borgir reconhecível sem ser uma caricatura de Dimmu Borgir.
Existe, obviamente, um preço para carregar uma discografia tão pesada nas costas. Quando você é responsável por alguns dos discos mais importantes do metal extremo dos anos 1990 e 2000, qualquer álbum novo chega acompanhado de uma fila de fantasmas. O ouvinte compara, compara riffs, compara timbre, compara vocais, compara produção e compara até a quantidade de demônios por metro quadrado. E “Grand Serpent Rising” não escapa disso.
Mas talvez ele não precise escapar, porque seu mérito está justamente em não tentar vencer o passado no próprio território. O disco prefere construir uma ponte entre diferentes fases da banda.
Quem sente falta da agressividade antiga encontrará momentos para satisfazer a fome, quem prefere o Dimmu Borgir monumental encontrará arranjos grandiosos, quem entrou na banda durante a fase mais acessível provavelmente encontrará portas abertas e quem queria simplesmente saber se Shagrath e companhia ainda tinham algo a dizer pode respirar aliviado, tinham.
“Repository of Divine Transmutation” é um dos pontos em que o álbum mostra sua faceta mais ritualística. “Slik Minnes en Alkymist” segue por caminhos igualmente atmosféricos, reforçando a ideia de transformação que percorre o trabalho. Aqui, o álbum deixa claro que não pretende ser uma coleção de singles. Ele quer ser ouvido como álbum e isso é cada vez mais raro.
“Grand Serpent Rising” recompensa a audição completa porque suas músicas funcionam melhor quando inseridas dentro desse percurso. Há introdução, tensão, explosão, contemplação e retorno à escuridão. É praticamente uma narrativa.
Ou, no mínimo, uma boa desculpa para apagar as luzes, colocar o volume acima do recomendado e deixar os vizinhos imaginarem que alguma seita acabou de se mudar para a casa ao lado.
“Phantom of the Nemesis” mostra novamente a capacidade da banda de trabalhar o contraste entre peso e grandiosidade. Já “Recognizant” e “At the Precipice of Convergence” ajudam a conduzir o álbum para seu trecho final sem a necessidade de transformar tudo em uma corrida desenfreada. E essa talvez seja uma das características mais interessantes do disco.
O Dimmu Borgir aprendeu a respirar. Isso pode parecer estranho quando estamos falando de uma banda associada a velocidade, teatralidade e excesso. Mas é justamente a dinâmica que impede “Grand Serpent Rising” de virar uma massa uniforme de guitarras, teclados e blast beats. Quando tudo é grande, nada é grande. Aqui, os noruegueses entenderam isso.
Quando a orquestra entra, sentimos. Quando a guitarra rasga, sentimos. Quando a bateria acelera, sentimos, o contraste voltou a ter importância.
No final, “Gjǫll” deixa aquela sensação de que o álbum chegou ao fim, mas a história não necessariamente terminou, talvez seja essa a melhor imagem para “Grand Serpent Rising”. Uma criatura antiga voltou à superfície. Ela não é exatamente a mesma de décadas atrás. Algumas escamas mudaram de cor, algumas cicatrizes ficaram visíveis e determinadas partes da velha anatomia foram abandonadas pelo caminho. Mas continua sendo perigosa.
O novo disco não é perfeito e nem precisa ser. Há momentos em que a duração pesa, algumas ideias poderiam ser mais econômicas e certas passagens dependem mais da atmosfera do que da capacidade de permanecer imediatamente na memória. Mas, diante de uma carreira tão longa, o mais importante é outra coisa: há vida aqui. Não aquela vida confortável de banda veterana excursionando eternamente com os mesmos clássicos. Vida criativa. Vontade de mexer na própria fórmula, vontade de olhar para o passado sem morar nele e principalmente, vontade de ainda soar como Dimmu Borgir.
“Grand Serpent Rising” não tenta ressuscitar o passado, ele o invoca. E depois deixa a serpente fazer o resto.
Posso dizer que depois de oito anos, o Dimmu Borgir volta sem pedir desculpas pelo tamanho da própria sombra. E ainda bem. O metal já tem bandas suficientes tentando parecer perigosas. Eles preferem continuar parecendo uma ameaça.
Músicas
1- Tridentium
2- Ascent
3- As Seen in The Unseen
4- The Qryptfarer
5- Ulvgjeld & Blodsodel
6- Repository of Divine Transmutation
7- Slik Minnes en Alkymist
8- Phantom of The Nemesis
9- The Exonerated
10- Recognizant
11- At the Precipice of Convergence
12- Shadows of a Thousand Perceptions
13- Gjǫll

Geraldo “Gegê” Andrade blogueiro e vlogueiro a mais de 15 anos. Iniciou sua paixão pelo rock n roll, nos anos 80, quando pela primeira vez, ouviu um álbum da banda KISS. Tem um currículo com mais de 500 shows, de bandas nacionais e internacionais. Um especialista em entrevistas, já tendo entrevistado vários músicos nacionais e internacionais.
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Geraldo "Gegê" Andrade blogueiro e vlogueiro a mais de 15 anos. Iniciou sua paixão pelo rock n roll, nos anos 80, quando pela primeira vez, ouviu um álbum da banda KISS. Tem um currículo com mais de 500 shows, de bandas nacionais e internacionais. Um especialista em entrevistas, já tendo entrevistado vários músicos nacionais e internacionais.


