Resenha: “Rats in the Temple” – Flotsam and Jetsam (2026)
August 31, 2026 0 By Geraldo AndradeTem banda que passa dos 40 anos de carreira vivendo de memória afetiva. Tem banda que transforma o próprio passado em uma espécie de franquia, reaquece os velhos clássicos e segue em frente contando com a boa vontade dos fãs. E tem o Flotsam and Jetsam. Ainda bem.
Porque se existe uma coisa que “Rats in the Temple” deixa evidente logo nos primeiros minutos é que o grupo de Phoenix, Arizona, não está interessado em fazer uma visita guiada ao seu passado. Os caras conhecem a própria história, sabem o peso de “Doomsday for the Deceiver” e “No Place for Disgrace”, mas preferem olhar para frente. E isso, em 2026, é quase um ato de rebeldia.
Lançado pela Napalm Records, “Rats in the Temple” traz 13 faixas e pouco mais de 56 minutos de música. Tempo suficiente para o Flotsam desfilar thrash, heavy metal, melodias, atmosferas sombrias e aquela quantidade saudável de riffs que faz qualquer pescoço de metalhead começar a reclamar, e reclamação aqui é elogio.
“Harvesting the Hate” abre o álbum sem pedir licença. É o tipo de faixa que já chega dizendo: “senta aí que a coisa vai ficar feia”. As guitarras de Michael Gilbert e Steve Conley trabalham em uma combinação de peso e melodia que se tornou uma das marcas do Flotsam moderno, enquanto Ken Mary trata a bateria como se tivesse alguma dívida pessoal com ela.
E então entra Eric A.K. Ah, Eric A.K. A voz mudou com o tempo, obviamente. Seria estranho se não tivesse mudado. Mas ela ganhou algo que nenhum produtor consegue fabricar: personalidade. Não existe aqui aquela tentativa constrangedora de cantar como se estivéssemos novamente em 1986. O vocal está mais encorpado, áspero e maduro. E combina perfeitamente com a proposta do disco. “Harvesting the Hate” é uma excelente abertura e já coloca o álbum em outro patamar.
“Damnation” e “Absolution” mostram que o Flotsam não está interessado apenas em velocidade. Existe técnica, precisão. Existem mudanças de andamento. Mas, principalmente, existem músicas.Essa diferença parece pequena, mas não é. Tem muito músico capaz de tocar um riff complicado. O difícil é fazer alguém lembrar daquele riff depois que a música acaba, mas o Flotsam consegue. E é justamente por isso que “Rats in the Temple” funciona melhor quando ouvido como álbum, e não como uma simples coleção de faixas.
“Blame the Knife” é mais sombria, cadenciada e pesada. Não depende da velocidade para esmagar. Pelo contrário: ela cria tensão justamente quando segura a mão. É uma das melhores demonstrações de maturidade do disco. O Flotsam descobriu algo que bandas jovens normalmente demoram para entender: às vezes, o riff mais pesado é aquele que você deixa respirar.
E então vem “Rats in the Temple”, a faixa-título é provavelmente o momento em que o álbum mostra todas as suas cartas, e são muitas. Thrash? Tem. Heavy metal? Tem. Guitarra melódica? Tem. Arranjos mais elaborados? Tem. Peso? Tem até para distribuir. O mais interessante é que a música nunca parece estar tentando impressionar pela técnica. A técnica está ali porque faz parte da composição. E isso é uma diferença enorme. Quando uma banda coloca virtuosismo na frente da música, o resultado costuma ser frio. Aqui acontece o contrário. A técnica serve à música. E a música serve ao caos.
Então “First on the Spike” entra para resolver qualquer problema de excesso de contemplação. É pancada. Rápida, agressiva e com um riff daqueles que parecem projetados em laboratório para causar danos à cervical. Se essa música não funcionar ao vivo, alguma coisa está errada com o universo. O Flotsam tem uma qualidade que muitas bandas de thrash perderam com o tempo: sabe escrever música de palco sem transformar tudo em clichê.
“The Edge of Nowhere”, outra faixa que merece atenção. Aqui a banda trabalha mais a dinâmica, alternando momentos de tensão com explosões de peso. E novamente aparece aquela mistura que o grupo domina tão bem: agressividade e melodia.
O álbum começa a revelar uma característica importante: apesar da quantidade de músicas, existe preocupação com a sequência. Você não sente que está ouvindo a mesma faixa 13 vezes. E isso já coloca “Rats in the Temple” acima de muita coisa lançada por bandas veteranas nos últimos anos.
Quando os sinos aparecem, você já sabe que coisa boa não vem por aí. “Last Rites” tem uma atmosfera quase fúnebre, mas não cai no exagero teatral. A banda constrói o clima e depois deixa as guitarras fazerem o resto. É uma música que funciona particularmente bem dentro do álbum porque quebra a sequência de velocidade e dá outro peso à narrativa. Não é apenas “mais uma música”. É parte do clima.
“A Taste for War” é outra pedrada. Só que, em vez de simplesmente acelerar, a banda aposta em um andamento mais pesado e marcial. É como se o Flotsam tivesse colocado um tanque de guerra dentro do estúdio. Riff pesado, bateria marcando o avanço e aquele vocal de Eric A.K. comandando o ataque. Uma das faixas mais interessantes do disco justamente porque mostra que a banda pode soar gigantesca sem necessariamente tocar na velocidade máxima.
Em “Her Blood Your Pain”, disco ganha um pouco mais de emoção. Aqui mostra um Flotsam mais melódico, mas sem abandonar o peso. E é um bom lembrete de que essa banda sempre teve uma relação muito particular com a melodia. Eles podem tocar rápido pra caramba, mas sabem o que estão fazendo.
Fechando o trabalho, temos “Not Goin’ Down That Way” é uma faixa pesada e direta, que combina riffs agressivos com uma pegada melódica bastante característica do Flotsam and Jetsam. A música transmite atitude e energia, com vocais intensos e uma instrumentação que mantém o ouvinte preso do início ao fim. Um bom exemplo da capacidade da banda de unir peso e musicalidade sem perder sua identidade.
“Rats in the Temple” mostra o Flotsam and Jetsam mantendo sua identidade no thrash metal, combinando peso, velocidade e uma boa dose de melodia. O álbum tem riffs agressivos, vocais marcantes e uma produção que valoriza a força das músicas sem tirar sua essência. Não é necessariamente o trabalho mais revolucionário da banda, mas entrega um thrash competente, energético e cheio de personalidade. Para quem acompanha o grupo, é um disco que merece uma boa audição e confirma a capacidade do Flotsam and Jetsam de continuar relevante dentro do gênero.
Músicas
1- Harvesting the Hate
2- Damnation
3- Absolution
4- Blame the Knife
5- Rats in the Temple
6- The Ghost Behind My Door
7- First on the Spike
8- The Edge of Nowhere
9- Last Rites
10- A Taste for War
11- Her Blood Your Pain
12- Anthem for the Broken
13- Not Goin’ Down That Way

Geraldo “Gegê” Andrade blogueiro e vlogueiro a mais de 15 anos. Iniciou sua paixão pelo rock n roll, nos anos 80, quando pela primeira vez, ouviu um álbum da banda KISS. Tem um currículo com mais de 500 shows, de bandas nacionais e internacionais. Um especialista em entrevistas, já tendo entrevistado vários músicos nacionais e internacionais.
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Geraldo "Gegê" Andrade blogueiro e vlogueiro a mais de 15 anos. Iniciou sua paixão pelo rock n roll, nos anos 80, quando pela primeira vez, ouviu um álbum da banda KISS. Tem um currículo com mais de 500 shows, de bandas nacionais e internacionais. Um especialista em entrevistas, já tendo entrevistado vários músicos nacionais e internacionais.


