Resenha: “Homage” – Tesla (2026)
October 7, 2026 0 By Geraldo AndradeTem banda que envelhece mal. Tem banda que envelhece bem. E tem o Tesla, que simplesmente parece ter decidido ignorar solenemente o calendário.
Em 2026, enquanto boa parte do mundo do rock vive de turnê comemorativa, camiseta de 1987 e disco remasterizado pela enésima vez, Jeff Keith e seus camaradas aparecem com “Homage”, um álbum que não tenta esconder a idade, não tenta parecer moderno e muito menos pede desculpas por gostar de música feita quando o Spotify ainda era uma vaga ideia na cabeça de alguém.
E isso, meus amigos, já é um ótimo começo, só que há uma pegadinha.
“Homage” não é exatamente um novo disco de inéditas do Tesla. Na verdade, das 14 faixas, apenas uma é composição própria: “Never Alone”. O restante é uma seleção de músicas que ajudaram a formar o repertório afetivo e musical da banda. E aqui está a graça.
Porque se você esperava outro “Mechanical Resonance”, pode guardar a expectativa na gaveta. Se queria um novo “The Great Radio Controversy”, melhor colocar os clássicos para tocar. Mas se a ideia é descobrir o que existia na vitrola dos caras antes de eles começarem a fazer barulho por conta própria, então pode aumentar o volume.
O Tesla nunca foi aquela banda que fingiu ter nascido do nada. Por trás daquele hard rock americano, das guitarras de Frank Hannon e da garganta de Jeff Keith, sempre estiveram o blues, o southern rock, o soul, o R&B e aquele rock setentista que tinha mais groove do que pose.
“Homage” simplesmente escancara o armário. E o sujeito que abre a porta é Jeff Keith. A voz continua lá: rouca, rasgada, peculiar e completamente impossível de confundir.
O mais interessante é que Keith não tenta ser os caras que originalmente gravaram essas músicas. Não tenta ser Freddie Mercury, Elvis, James Brown, E graças a Deus, não tenta ser ninguém além de Jeff Keith. É justamente aí que o negócio funciona.
A seleção de repertório é daquelas que fazem o sujeito olhar para a capa do disco e pensar: “Tesla?” Sim, Tesla.
Tem Sam Cooke, Temptations, James Brown, Etta James, Elvis Presley, Queen, Bob Seger, Lynyrd Skynyrd, Creedence Clearwater Revival e Supertramp.
Ou seja: os caras foram às compras e voltaram com praticamente o supermercado inteiro. E não é uma coleção aleatória. Existe uma lógica. O Tesla está mostrando que o seu DNA nunca esteve restrito ao hard rock.
Pegue “I’d Rather Go Blind”, por exemplo. Etta James não é exatamente a primeira associação que vem à cabeça quando alguém fala “Tesla”. Mas é justamente aí que mora a diversão. A banda consegue transportar aquela carga blues/soul para seu próprio universo sem transformar a música numa caricatura de rock pesado. É como colocar um motor V8 em um carro antigo. Você reconhece o veículo. Mas sabe que tem alguma coisa diferente acontecendo debaixo do capô.
Queen, Freddie Mercury, só isso já seria motivo suficiente para qualquer banda pensar duas vezes. O Tesla não pensa. Vai lá e faz. “Spread Your Wings” é uma escolha particularmente feliz porque permite que a banda trabalhe a melodia sem precisar transformar tudo em um desfile de guitarras. E isso é uma das melhores coisas de “Homage”.
A banda sabe quando acelerar e, principalmente, sabe quando não acelerar. Parece básico. Não é.
Existe uma doença grave no rock pesado moderno chamada “preciso provar que sei tocar guitarra”. Frank Hannon aparentemente não pegou essa doença. O cara toca para a música. Ainda bem.
Em “Nigh Moves”, não tem como esconder. Se a interpretação for ruim, o ouvinte percebe imediatamente. Se for boa, você começa a imaginar o Tesla tocando isso num bar qualquer, cerveja na mão, amplificador valvulado trabalhando e ninguém com a menor preocupação sobre tendências musicais. E é exatamente essa sensação que “Homage” procura.
Não é um disco preocupado em ser “relevante”. É um disco preocupado em ser verdadeiro. Parece detalhe. Não é.
Vamos combinar uma coisa? Disco de covers é uma cilada. Porque sempre aparece aquela pergunta: “Legal. Mas por que eu não ouço o original?”
E, em alguns momentos de “Homage”, essa pergunta aparece. Não porque a banda toque mal — muito pelo contrário. É porque algumas das músicas escolhidas são tão fortes, tão definitivas, que simplesmente não precisam de outra versão. É o velho problema de mexer em time que está ganhando. Só que o Tesla não parece preocupado com isso. E talvez seja exatamente essa a melhor maneira de ouvir o álbum. Não procure substitutos. Procure interpretações.
E então temos a única inédita, “Never Alone”, e olha só que curioso: justamente quando o Tesla poderia aproveitar para mostrar que ainda tem munição autoral, a banda faz uma música que parece dizer: “Calma. A gente não precisa provar nada.”
É Tesla e tem a sujeira, melodia, atmosfera bluesy, Jeff Keith e tem a guitarra fazendo aquilo que deveria fazer desde sempre: servir à música. Não é uma faixa revolucionária, e nem precisa ser. Depois de quatro décadas, talvez a maior demonstração de confiança seja não tentar reinventar a roda.
O álbum diz uma coisa simples. Antes de existir Tesla, existia música. Antes de Jeff Keith berrar no microfone, alguém colocou Sam Cooke para tocar. Antes de Frank Hannon fazer seus solos, alguém ouviu Lynyrd Skynyrd. Antes de a banda gravar seus próprios clássicos, alguém colocou Queen, Elvis, Creedence, Supertramp e Bob Seger no toca-discos.
É uma árvore genealógica, e o Tesla resolveu apresentá-la, por isso o título é tão certeiro. Não é Reinvention, não é Revolution, não é Back From The Dead, é “Homage”. Homenagem e ponto.
Talvez a melhor maneira de encarar esse disco seja esquecer por alguns minutos a idade da banda. Esqueça o ano, o streaming, o algoritmo, o TikTok, Esqueça tudo.
Coloque “Homage” para tocar alto, se possível, em uma caixa de som que ainda tenha graves de verdade, e deixe rolar. Porque existe algo deliciosamente fora de época nesse disco e isso é um elogio.
Enquanto muita gente passa a carreira tentando parecer jovem, o Tesla parece confortável em ser veterano. E uma banda veterana que conhece suas raízes é muito mais interessante do que uma banda desesperada para esconder as próprias rugas.
“Homage” não é o disco que vai mudar a história do rock, também não precisa. É o Tesla tirando o chapéu para quem veio antes. É Jeff Keith cantando músicas que provavelmente ajudaram a formar o sujeito que viria a ser Jeff Keith. É Frank Hannon mostrando novamente que guitarra não precisa ser competição olímpica.
E é uma banda dizendo, sem muita cerimônia: “Essas são as músicas que fizeram a gente querer tocar.”
No fim das contas, é disso que o rock sempre tratou. De gente ouvindo música, se apaixonando, pegando um instrumento, ligando o amplificador e fazendo barulho.
O Tesla continua fazendo. E, em 2026, isso já é uma bela homenagem ao próprio rock.
Músicas
01- Never Alone (original)
02- Bring It On Home (Sam Cooke cover)
03- Spread Your Wings (Queen cover)
04- I Wish It Would Rain (The Temptations cover)
05- Night Moves (Bob Seger cover)
06- If I Can Dream (Elvis Presley cover)
07- Come And Get It (Badfinger cover)
08- I Got You (James Brown cover)
09- Give A Little Bit (Supertramp cover)
10- I Love You (2026 Version) (Climax Blues Band cover)
11- Have You Ever Seen The Rain (Creedence Clearwater Revival cover)
12- The Ballad Of Curtis Loew (Lynyrd Skynyrd cover)
13- I’d Rather Go Blind (Etta James cover)
14- Mind Your Own Business (Hank Williams Sr. cover)

Geraldo “Gegê” Andrade blogueiro e vlogueiro a mais de 15 anos. Iniciou sua paixão pelo rock n roll, nos anos 80, quando pela primeira vez, ouviu um álbum da banda KISS. Tem um currículo com mais de 500 shows, de bandas nacionais e internacionais. Um especialista em entrevistas, já tendo entrevistado vários músicos nacionais e internacionais.
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Geraldo "Gegê" Andrade blogueiro e vlogueiro a mais de 15 anos. Iniciou sua paixão pelo rock n roll, nos anos 80, quando pela primeira vez, ouviu um álbum da banda KISS. Tem um currículo com mais de 500 shows, de bandas nacionais e internacionais. Um especialista em entrevistas, já tendo entrevistado vários músicos nacionais e internacionais.



