Resenha: “Force” – Force (2026)

Resenha: “Force” – Force (2026)

August 17, 2026 0 By Geraldo Andrade

Existe algo deliciosamente fora de época em FORCE, primeiro álbum da banda chilena de mesmo nome. E não, isso não é uma crítica — é justamente o contrário. Em tempos de produções excessivamente calculadas, timbres comprimidos e fórmulas que parecem nascer prontas para o algoritmo, o power trio formado por Laureano “Starboy” (voz e guitarra), Hans Beyer (baixo) e Camila “Sulwacker” (bateria) escolhe um caminho muito mais perigoso: tocar hard rock como se a década de 1980 ainda estivesse acontecendo.

Lançado em fevereiro de 2026, o disco chega com oito faixas e uma identidade que não deixa muito espaço para dúvidas. Há riffs musculosos, refrões que parecem feitos para serem gritados por uma plateia inteira, vocal rasgado, solos de guitarra e aquela indispensável atitude glam que transforma o rock em espetáculo. Mas FORCE não se limita a reproduzir uma fotografia antiga. A banda acrescenta sintetizadores de inspiração retrowave e uma produção contemporânea, criando uma ponte interessante entre o hard rock clássico e uma geração que descobriu esse universo décadas depois de sua época de ouro.

E é justamente aí que está o charme do álbum: FORCE não tenta esconder suas influências. Pelo contrário, desfila com elas.

Se existe uma faixa capaz de apresentar a proposta do disco em poucos minutos, é “Power of Rock”. Riff direto, vocal agudo, refrão de arena e guitarra assumindo o protagonismo. É como se a banda dissesse logo de cara: “é disso que gostamos — e vamos tocar alto”.

A faixa tem aquele DNA do hard/glam que nasceu para funcionar tanto no fone de ouvido quanto diante de um palco cheio. Não há excesso de intelectualização. O objetivo é simples: energia, atitude e diversão. E funciona.

Na sequência, “Mr. S” mostra que o FORCE não pretende viver apenas de refrões festeiros. A música mergulha mais fundo no lado pesado do glam metal, trazendo à tona referências que passam por nomes como Vinnie Vincent, Shotgun Messiah e Slaughter.

Aqui, a guitarra de Starboy ganha espaço para mostrar dentes, enquanto a cozinha formada por Beyer e Sulwacker mantém a máquina funcionando com precisão. É uma das faixas que melhor traduzem a proposta do trio: peso sem abrir mão da melodia.

Não por acaso, “Shine like me, B#tch!” foi escolhida como primeiro single. É provavelmente a faixa que melhor encapsula a personalidade visual e sonora do grupo: provocativa, acelerada, cheia de atitude e com um refrão que gruda.

Lançada originalmente em 2025, a música ganhou novo significado dentro do álbum ao deixar de ser apenas uma apresentação da banda e passar a funcionar como uma espécie de manifesto. O riff pesado, a bateria marcada e o vocal rasgado colocam o ouvinte imediatamente no universo do FORCE. É hard rock sem vergonha de ser hard rock.

Se há duas músicas que parecem ter sido feitas para tocar com as janelas abertas e o amplificador no talo, são “Sexrider” e “Shake n’ Sweet”.

As duas carregam aquele espírito essencialmente rock’n’roll que transforma o álbum em uma experiência física. São faixas de movimento, de estrada, de diversão. Não precisam reinventar o gênero porque entendem uma de suas maiores virtudes: um bom riff ainda é capaz de resolver muita coisa.

Nesse ponto, FORCE acerta ao não transformar sua reverência aos anos 80 em uma caricatura. A banda entende que o glamour daquela época não estava apenas nas roupas ou nos cabelos — estava principalmente na sensação de liberdade que aquelas músicas transmitiam.

E então vem “SPEED”, segundo single e uma das faixas mais explosivas do álbum.

O título já entrega a proposta. A música foi concebida para transmitir a sensação de um trem em alta velocidade, ideia que nasceu de um riff que Starboy desenvolvia havia anos. “SPEED” é adrenalina pura. É provavelmente a faixa que melhor demonstra a capacidade do FORCE de transformar sua influência oitentista em combustível para uma sonoridade atual.

Nos momentos finais, o disco reduz um pouco a velocidade com “Once Again” e “Betrayal”. E ainda bem.

Se todas as oito faixas permanecessem permanentemente no modo “pé no acelerador”, o álbum poderia perder profundidade. Essas duas músicas introduzem um lado mais melódico e emocional, funcionando como contraponto para a avalanche que veio antes.

É aqui que o FORCE mostra que entende algo fundamental sobre discos de hard rock: até uma boa festa precisa de um momento para respirar.

FORCE é, acima de tudo, um álbum de identidade. A banda chilena não parece preocupada em descobrir um novo gênero ou em desconstruir o passado. Sua ambição é outra: resgatar uma linguagem que ama e provar que ela ainda pode funcionar em 2026.

As músicas parecem construídas para o palco. Os refrões pedem público. Os riffs pedem volume. Os solos pedem luzes. E a estética glam não aparece como fantasia, mas como parte inseparável da personalidade da banda.

FORCE é um álbum que não quer convencer ninguém de que o hard rock morreu. Quer simplesmente mostrar que ele ainda pode fazer barulho.

Entre “Power of Rock”, “Mr. S”, “Shine like me, B#tch!”, “Sexrider”, “Shake n’ Sweet” e “SPEED”, o trio entrega uma estreia consistente, energética e, sobretudo, honesta com aquilo que pretende ser.

No fim das contas, talvez a melhor definição para FORCE seja justamente essa: um disco que nasceu décadas depois da sua inspiração, mas que se recusa a soar como uma peça de museu.

E se a missão era colocar o hard rock chileno novamente diante dos holofotes, o FORCE já apertou o interruptor.

force

Músicas
1- Power of Rock
2- Mr. S
3- Shine like me, Bitch!
4- SPEED
5- Sexrider
6- Shake n’ Sweet
7- Once Again
8- Betrayal

Geraldo "Gegê" Andrade

Geraldo “Gegê” Andrade blogueiro e vlogueiro a mais de 15 anos. Iniciou sua paixão pelo rock n roll, nos anos 80, quando pela primeira vez, ouviu um álbum da banda KISS. Tem um currículo com mais de 500 shows, de bandas nacionais e internacionais. Um especialista em entrevistas, já tendo entrevistado vários músicos nacionais e internacionais. 

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