Resenha: “On the Shortness of Life” – HIBRIA (2026)
August 10, 2026 0 By Geraldo AndradeHá bandas que simplesmente lançam álbuns. Outras carregam uma história nas costas e, quando entram em estúdio, sabem que estão colocando muito mais do que novas músicas para o mundo. O Hibria pertence ao segundo grupo.
Com quase três décadas de estrada, mudanças de formação e uma trajetória que colocou o nome da banda entre os grandes representantes do heavy metal brasileiro, o Hibria chega a 2026 olhando para uma questão que acompanha todos nós: quanto tempo realmente temos — e o que estamos fazendo com ele?
É justamente aí que entra “On the Shortness of Life”, novo álbum do grupo gaúcho, inspirado na filosofia estoica de Sêneca. O disco parte de uma ideia poderosa: a vida não é necessariamente curta; nós é que frequentemente desperdiçamos aquilo que temos. E transformar esse conceito em heavy metal é uma escolha que combina perfeitamente com a história do Hibria.
A formação atual conta com Angelo Parisotto nos vocais, Abel Camargo e Velles nas guitarras, Benhur Lima no baixo e William Schuck na bateria.
E se os primeiros singles serviram como cartão de visitas, podemos esperar um Hibria pesado, técnico, melódico e, acima de tudo, consciente de sua própria identidade.
O novo trabalho começa com “Undying”, abrir um novo capítulo nunca é simples. Ainda mais para uma banda com uma história tão forte. “Undying” cumpre justamente essa função. A música apresenta peso, melodia e aquela precisão instrumental que sempre fez parte do DNA do Hibria, enquanto a letra coloca o ouvinte diante da ideia de viver de maneira consciente. Não é simplesmente uma música rápida para começar o disco. É uma declaração de princípios.
As guitarras mostram que Abel Camargo e Velles formam uma dupla preparada para manter a tradição da banda, enquanto a cozinha entrega a sustentação necessária para que tudo soe poderoso. O resultado é uma faixa que olha para frente sem esquecer de onde o Hibria veio.
Se “Undying” apresenta o conceito, “Fire Away” promete colocar gasolina na máquina. O próprio título já sugere movimento, urgência e atitude. E é justamente essa sensação que combina com a proposta do álbum: não existe tempo infinito para ficar parado. Aqui, a velocidade e a força do heavy metal encontram uma mensagem que parece dizer ao ouvinte: levante-se e faça alguma coisa com o seu tempo. É o tipo de faixa que tem tudo para funcionar muito bem ao vivo, especialmente quando o público estiver diante de um Hibria em sua cidade natal.
“Pulse” surge como uma faixa que, pelo próprio conceito, parece dialogar diretamente com a ideia central do álbum. O tempo passa. O coração bate. A vida acontece. E o Hibria transforma esse conceito em música.
É interessante perceber como o novo trabalho parece buscar não apenas velocidade e técnica, mas também atmosfera. Afinal, falar sobre a brevidade da vida exige mais do que simplesmente tocar rápido.
Se existe uma palavra que combina com a trajetória do Hibria, talvez seja justamente persistência. Depois de tantas mudanças e momentos de incerteza, a banda continua de pé. E “Persist” parece carregar esse espírito dentro do próprio título. É aquela música que pode funcionar como trilha sonora para quem está enfrentando dificuldades, lembrando que desistir nem sempre é uma opção. Heavy metal também pode ser resistência. E o Hibria sabe muito bem disso.
“Melting Alive” sugere urgência, desconforto e a sensação de que o tempo está escapando pelas mãos. É justamente uma das ideias mais fortes que podem ser extraídas da filosofia de Sêneca: não devemos esperar que a vida comece algum dia no futuro. Ela está acontecendo agora. E transformar essa ansiedade existencial em riffs e peso é uma das propostas mais interessantes do álbum.
Entre os singles apresentados antes do lançamento, “Against the Wall” merece atenção especial. A música representa o momento em que o indivíduo se vê diante dos próprios limites. Não existe mais espaço para distrações ou atalhos. É você, suas escolhas e a parede à sua frente. Musicalmente, a faixa aposta em peso, técnica e tensão, criando uma atmosfera que combina perfeitamente com seu conceito. O muro deixa de ser apenas um obstáculo e passa a funcionar como um espelho. E talvez essa seja uma das mensagens mais fortes de “On the Shortness of Life”: em algum momento, todos precisamos parar e encarar quem realmente somos.
Já “Animus”, adiciona mais uma camada ao universo conceitual do álbum. Aqui o Hibria parece interessado não apenas na passagem do tempo, mas naquilo que fazemos internamente enquanto ele passa. Desejos, conflitos, decisões, medo, coragem. É nesse território psicológico que o disco pode encontrar uma de suas maiores forças. Porque o verdadeiro inimigo não está necessariamente do lado de fora.
E então chegamos à faixa-título, ela funciona como o grande fechamento conceitual do álbum, conduzindo a obra para uma conclusão que vai muito além do tradicional “última música do disco”. É como se o Hibria transformasse o álbum inteiro em uma jornada. Começamos diante da existência, enfrentamos nossos limites, encaramos o tempo, as escolhas e os conflitos e chegamos à possibilidade de uma vida vivida com propósito. Para uma banda de heavy metal, é um conceito ousado. Para o Hibria, parece fazer bastante sentido.
O Hibria continua sendo o Hibria. Uma das maiores virtudes de “On the Shortness of Life” é não tentar apagar o passado.
O Hibria continua apostando na combinação que ajudou a construir sua reputação: guitarras marcantes, técnica, velocidade, peso, melodias fortes e vocais que precisam ocupar seu espaço dentro das composições.
Mas existe também uma preocupação evidente em construir um álbum conceitual, algo que dá ao trabalho uma identidade própria.
“Undying” mostra a força melódica.
“Against the Wall” apresenta o lado mais tenso e reflexivo.
“Fire Away” aponta para a energia que certamente funcionará muito bem nos palcos.
E a faixa-título promete ser o grande momento conceitual da obra.
Tudo isso faz “On the Shortness of Life” parecer menos um simples novo capítulo e mais uma reflexão de uma banda que já viveu bastante — mas ainda tem muito a dizer.
Ainda é cedo para cravar que “On the Shortness of Life” seja o melhor álbum da carreira do Hibria. Mas uma coisa já podemos afirmar: o Hibria encontrou um conceito à altura de sua própria história.
Sêneca escreveu sobre o desperdício do tempo há quase dois mil anos. O Hibria pega essa reflexão e transforma em heavy metal. E talvez não exista maneira melhor de resumir a proposta do disco: a vida passa. O tempo não espera. Então aumente o volume e viva.
“On the Shortness of Life” chega justamente para nos lembrar disso e com esse trabalho, o Hibria mostra que experiência não significa acomodação — significa ter algo verdadeiro para dizer.
Músicas
1- Undying
2- Fire Away
3- Pulse
4- Persist
5- Melting Alive
6- Against the Wall
7- Animus
8- On the Shortness of Life

Geraldo “Gegê” Andrade blogueiro e vlogueiro a mais de 15 anos. Iniciou sua paixão pelo rock n roll, nos anos 80, quando pela primeira vez, ouviu um álbum da banda KISS. Tem um currículo com mais de 500 shows, de bandas nacionais e internacionais. Um especialista em entrevistas, já tendo entrevistado vários músicos nacionais e internacionais.
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Geraldo "Gegê" Andrade blogueiro e vlogueiro a mais de 15 anos. Iniciou sua paixão pelo rock n roll, nos anos 80, quando pela primeira vez, ouviu um álbum da banda KISS. Tem um currículo com mais de 500 shows, de bandas nacionais e internacionais. Um especialista em entrevistas, já tendo entrevistado vários músicos nacionais e internacionais.


